• A arte da cantada


    Danilo Angrimani

    Quando era adolescente, tinha um amigo (vamos chamá-lo de Nelson) que treinava cantadas. Ele era obcecado pela arte de dizer a palavra certa no momento da paquera. Com a turma, ele se exibia referindo-se a situações, onde havia conseguido dobrar a garota, com uma frase que servira de argumento decisivo.
    A mais surrada de todas, na época, era: “O cachorrinho tem telefone?” A garota geralmente respondia com desaforos: “É o mesmo da tua mãe”. Outras, mais criativas, diziam: “O cachorrinho tem telefone, sim, só que ele prefere cachorras”.
    Nelson era estranho, porque todo o esforço dele voltava-se para a conquista. Os passos seguintes – convivência, vínculos, paixão – eram dispensáveis. Ele vivia para aquilo: a cantada. Conseguir encontrar a frase de impacto.
    Se Nelson fosse adolescente hoje, teria na internet um imenso repertório de cantadas. Nada de pedir o telefone do cachorrinho. Era só ter um pouco de paciência e garimpar que encontraria milhares de frases de efeito.
    Tem muito material antigo: “Você se machucou, depois que caiu do céu?”.
    Não precisa apelar para o estilo cafajeste: “Você não usa calcinha, você usa porta-joia”. Há coisa mais moderna à disposição: “Me joga no Google, me chama de pesquisa e diz que você achou o que estava procurando”.
    Ou poéticas rudimentares: “Eu beberia o mar, se você fosse o sal”. Até cantada-merchan a gente encontra por ali: “Seu pai é dono da Fiat? Você tem meu Stilo e não sai da minha Ideia”.
    Agora, sinceramente, com tanta água rolando debaixo (e por cima) da ponte, depois de tanto sutiã queimado, tem coisa mais fora de moda que cantada?
    Mas como não escutar os gritos dos pedreiros, na construção ao lado de casa, diante da moça com seus predicados emoldurados pelo shorts de verão:
    “Suspende a batata frita! O filé chegou!”.