• A célula da discórdia


    Danilo Angrimani

    A criação de uma célula artificial prova aquilo que eu já suspeitava há muito tempo. Os cientistas serão capazes de criar um ser humano, igualzinho àqueles que a gente vê aos montes nas ruas, mas, em compensação, problemas elementares, que tornam a nossa vida miserável, vão continuar existindo e talvez até se multiplicando.
    Um exemplo prático: sou assinante de uma empresa que oferece canais de TV por satélite. É tanta tecnologia que nem me atrevo a pensar no trabalho que dá enviar um sinal lá para cima, o satélite receber, decodificar e disparar novamente aqui pra baixo, bem no meio da antena da minha casa.
    Até outro dia, a empresa fornecia dois canais que transmitiam futebol. De um momento para o outro, os canais sumiram. Foram substituídos por 300 canais de desenho animado.
    Liguei para a operadora e pedi para a atendente se ela poderia trocar os 300 canais de desenho animado, que eu não assisto, pelos meus dois canais esportivos, subtraídos na calada da noite. Nada feito, ela respondeu. “É um pacote. A gente não tem como mexer no pacote”.
    Percebe? Os caras conseguem produzir uma célula, que funciona igualzinha às outras células “normais”, mas são incapazes de alterar o pacote de serviços da TV por assinatura.
    Bill Gates inventou a Microsoft e mudou o mundo. David Ho descobriu o coquetel antiAids e salvou milhares. Já a cidade, onde moro, continua a misturar lixo úmido com seco, inviabilizando aterros sanitários. É um estado de miserabilidade mental. Somente 2% dos municípios brasileiros reciclam lixo.
    Enfim, a vida não para de nos surpreender. Você se lembra quando o apresentador de TV inglês Michael Barrymore revelou ao mundo que era gay? Pois é, quinze anos depois, Barrymore voltou a sair com mulheres. Estaríamos diante do primeiro caso mundial de retorno para o armário?