• A falta de referências


    Danilo Angrimani

    Em maio de 1978, eu era “foca” de um “jornal de resistência”, como se dizia na época. Fui enviado para cobrir um ato público que os metalúrgicos realizariam no Paço Municipal de São Bernardo. A categoria estava em greve por reajuste salarial.
    O Brasil era governado por uma Ditadura Militar e os caras não brincavam em serviço. Para reprimir a manifestação, eles enviaram cavalaria, helicópteros equipados com metralhadoras, uns 50 carros espinha-de-peixe carregados de soldados da tropa de choque, além de carros de combate.
    O que seria um ato público pacífico virou pancadaria desproporcional. De um lado, trabalhadores desarmados, gritando “Lula! Lula!”; de outro, a repressão violenta.
    Lembro de ter visto uma repórter da falecida TV Tupi sair voando ao meu lado. Ela fora atingida por uma bomba de efeito moral. A explosão abriu um rombo na perna da jornalista. Sangrando, ela sentou-se no chão e escreveu a abertura de sua matéria. Comentou comigo: “Eu vou gravar só por teimosia. Sei que os caras da censura não vão deixar passar”.
    Talvez pela garoa e pelo frio, lembrei daquela tarde de maio ao cruzar na semana passada o Paço de São Bernardo. Senti falta de uma referência qualquer, algo que lembrasse a luta dos trabalhadores e a resistência à Ditadura Militar. Quem sabe um monumento. Fica a sugestão.
    Ridley Scott fez um filme estranho sobre Robin Hood. Conta a vida do sujeito ANTES de ser Robin Hood. Se filmasse a vida de Pelé, Scott falaria sobre a época em que Pelé era garoto e vendia amendoim torrado na feira. A parte dos 1.284 gols, das três copas do mundo, dos dois bicampeonatos mundiais pelo Santos ficariam de fora.
    Por falar em futebol, Dunga está certo. Tem coisa melhor na vida que sexo e sorvete. Pizza, por exemplo. Beijos.