• A gostosa


    Danilo Angrimani

    Existe a tanto tempo que ninguém mais presta atenção. Desde os primórdios da TV, ela está lá. É usada para vender produtos, para fazer figuração, para ficar ao lado de um homem – daquele que tem a palavra de fato. Raramente, diz uma palavra. Às vezes, ela se mexe. Dança. Rebola. Faz oferenda de suas partes pudendas para a câmera. Ela é a gostosa da TV.
    A gostosa não discursa. Seu corpo é a mensagem. Os produtores vestem a gostosa de biquíni, salto alto, adereços e mandam que ela sorria. A gostosa ri o tempo todo. Ela seduz você, telespectador privilegiado, afundado na sua poltrona.
    O apresentador fala, enquanto a gostosa fica ao lado. Na periferia. De repente, um corte de câmera mostra o decote, nádegas, coxas. É preciso estimular o público. Afastá-lo do controle remoto.
    Os programas do Gugu, Faustão, Silvio Santos são repletos de gostosas. Elas funcionam como enfeites, ornamentos, penduricalhos.
    Na atração Vai Dar Namoro, apresentada por Rodrigo Faro na TV Record, há uma profusão de gostosas. Elas estão na plateia, no palco. Para onde se olha, tem uma gostosa. São elas que trazem coisas para a cena, que dão apoio “técnico” ao apresentador. Sentadas em cadeiras, aspirantes a gostosas, aguardam um pretendente. Perfiladas com suas minissaias, pernas cruzadas e lábios besuntados de batom, pertencem ao segundo time. São “quase” gostosas. Estão ali para mostrar que uma boa maquiagem e um banho de loja fazem milagres.
    O programa Brothers, da RedeTV!, apresentado por dois integrantes da família Suplicy, usa gostosas embaladas em fantasias fetiche. Mudas, elas mexem a cabeça, oscilam ao redor do eixo do salto alto e não sabem onde pôr as mãos. Como éguas, elas disputam provas na pista de areia do Jockey, trajando biquínis e salto alto.
    E pensar que um dia houve movimento feminista.