• A indústria cultural


    Danilo Angrimani

    Não sei se você acompanhou a história. Faço um resumo. O assessor especial do presidente Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, atacou a indústria cultural americana e qualificou a programação de TV a cabo no Brasil como um “esterco cultural”, que busca a “hegemonia cultural dos Estados Unidos” e equivale à 4ª frota (divisão naval americana) atracando na baía de Guanabara. As declarações de Garcia provocaram uma reação em cadeia. Harpias reacionárias, caudilhos da pena, cineastas empoeirados, todos caíram em cima de Garcia, acusando-o de usar um discurso ideológico dos anos 60.
    Lembro da primeira vez que ouvi o termo “indústria cultural”, cunhado por sociólogos alemães da Escola de Frankfurt. Foi em um curso de pós-graduação na Universidade Metodista, em São Bernardo. A equipe de professores tinha feras como Ciro Marcondes Filho, Jaci Maraschin e Luiz Roberto Alves.
    É estranha uma reação tão apaixonada. É estranha, porque a indústria cultural existe de fato: 93% dos filmes exibidos nos canais a cabo vêm de fora – a maioria, dos EUA. Tudo bem que o mundo globalizou-se, blá-blá-blá. Só que é uma “globalização” de mão única. Não me consta que assinantes americanos de TV a cabo tenham 93% de programação de produtos brasileiros.
    A dominação cultural é profunda. Recordo que, quando fui escrever um conto, com 15 anos, não conseguia chamar meus personagens de “João”, “Maria”. Os nomes que me pareciam mais “reais” eram “John”, “Susan”. Mais tarde, na universidade, quando propus fazer uma pesquisa sobre essa forma de colonialismo, o pessoal riu. Balançou a cabeça. “Esquece”, eles diziam, “ninguém mais pesquisa isso”.
    No Brasil, há emissoras de rádio que transmitem música americana 24 horas por dia durante sete dias por semana. Nas livrarias, o espaço nobre é concedido aos best-sellers americanos e ingleses. Será que as declarações de Marco Aurélio Garcia são tão datadas assim?