• A lição das chuvas


    Danilo Angrimani

    Janeiro acabou e com ele ficou a impressão de que algo não vai bem. Uma sensação de impotência diante de forças desconhecidas. Como se a natureza tivesse um plano secreto para se vingar da espécie humana. Tudo que mais se temia aconteceu: inundações, desabamentos, pessoas chapinhando na miséria dos lamaçais, motoristas presos em congestionamentos tentaculares, famílias perdendo bens e gente morrendo afogada, soterrada pelos escombros do caos urbano.
    O pior é que sabemos onde está o problema e, a solução. Fizemos tudo errado. Construímos onde não podia. Permitimos a ocupação de áreas que nunca poderiam ter sido ocupadas. Demorou 500 anos para produzir um pesadelo em invejável paraíso tropical.
    O ABCD foi severamente atingido. A via Anchieta – a mais importante estrada do País – teve o tráfego interrompido, por causa do transbordamento do ribeirão dos Couros. As cidades da região juntaram um compêndio de histórias tristes.
    Só que a prática do urbanismo irresponsável continua em plena atividade. Vem o trator. Derruba a cobertura vegetal. Faz a terraplenagem do terreno, sem dar a mínima para licenças, autorizações, o escambau. Passa por cima de toda essa minúcia de leis, artigos e órgãos omissos.
    O “empreendedor” constrói. Obtém escrituras e licenças, posteriormente (quando se dá ao trabalho de fazê-lo). Vende o imóvel. Ganha dinheiro. É obrigado no meio do caminho, às vezes, a pagar aquela propina de praxe.
    Como aqueles três macaquinhos célebres da estátua do Não Falo, Não Ouço, Não Digo, fecham o círculo da inoperância urbana: a Polícia Ambiental, os departamentos de proteção ao verde (tem vários), fiscais de obras e desenvolvimento urbano, promotoria pública, prefeituras, estados e união.
    Diante do empreendedorismo irresponsável, o poder público é tão aquiescente como bunda de gostosa em baile de Carnaval. Só que em abril o tempo melhora. Deixa estar pra ver como é que fica.