• Marcelinho, o perigoso


    Danilo Angrimani


    Baixinho, físico de jóquei, Marcelinho era um perigo. Embora fosse o oposto do bonitão sedutor, Marcelinho sabia agradar as mulheres. Elas, simplesmente, derretiam-se por ele.
    Ele nunca precisou de diploma. Sabia consertar as coisas. Tinha um talento inequívoco para descobrir o defeito das engenhocas e colocá-las novamente em funcionamento. Consertava pagers, celulares e, finalmente, aportou nos computadores. Quando o computador ficava escuro como uma mente suja, era só gritar que o Marcelinho aparecia. Em poucos segundos, o PC renascia. O homem era milagroso.
    Metia-se em confusões. Era costumeiro. Uma noite, um sujeito com físico de segurança de presidente americano, que aprendera boxe tailandês na Tailândia, chegou mais cedo em casa e ouviu ruídos estranhos no quarto. Subiu as escadas correndo. Viu a mulher, seminua, constrangida, com cara de culpada. Ouviu um espirro. Vinha debaixo da cama.
    Rezou para o amante ser um tipo como o Theo Becker, para usar todo seu conhecimento de artes marciais, capaz de inutilizar um oponente com um único golpe.
    Ao empurrar a cama, saiu lá debaixo um tipo franzino, pelado, coberto de pó. “Ah, não. É o Marcelinho...”, o maridão disse, frustrado. Ficou por isso mesmo.
    Uma madrugada, o telefone tocou às 3h. Era um tira de um distrito de São Bernardo. Tinham batido no carro de Marcelinho e ele, sem nenhum documento, fora detido. “Onde vai?”, minha mulher perguntou. Expliquei. E ela, desconfiada, devolveu na lata: “Na volta, não adianta usar a chave, porque vou trocar as fechaduras das portas”. Era a fama do Marcelinho me criando problemas.
    Quando entrei no distrito, achando que o coitado estaria trancado em uma cela suja e abafada, dei de cara com um tipo, copo de café fumegante nas mãos, no meio de uma roda de policiais, contando um caso, matando os investigadores de dar risada. Era Marcelinho, o perigoso.