• Mundos paralelos


    Danilo Angrimani

    Quem está a algum tempo vivendo no Brasil tem, às vezes, a sensação de que as autoridades e o povo vivem em mundos paralelos, incomunicáveis. Enquanto a população tem suas casas invadidas por lama, água suja ou ainda – em momentos trágicos - vê sua casa e sua família ser soterrada por toneladas de terra; as autoridades divagam. Colocam a culpa em bombas que não funcionaram direito e, na maioria das vezes, culpam as próprias vítimas pela tragédia. “O povo não tem educação. Entope as bocas de lobo com lixo. Joga porcarias nos rios.”
    Na realidade, o poder público parece viver no lado de lá daquele portal da série Stargate. Omissas, as autoridades não cumprem o seu papel. No Grande ABC, permitiu-se a ocupação de áreas de encostas, a invasão de mananciais, a instalação de favelas em beira de córregos. Pior que isso: depois da invasão, aparecem políticos oferecendo ajuda para “levar melhorias” a esses locais. No passado, tinha vereador, em São Bernardo, que distribuía até kit-barraco. Quando o poder público faz cara de paisagem, monta-se o cenário para a tragédia.
    O governo é muito eficaz na hora de entrar dentro do seu holerite e pegar o dinheiro do Imposto de Renda. O governo também não falha, quando instala o radar que vai multar o seu carro. Mas, na hora de assumir outros procedimentos de controle e fiscalização, o governo simplesmente dissolve-se. Faltam viaturas, faltam fiscais, os telefones tocam e ninguém atende.
    Por causa da alteração climática e da ocupação desordenada, os temporais vêm com uma força e uma virulência inéditas. Como naquele velho ditado de “quando não mata, aleija”, a tempestade onde cai tem provocado prejuízos incalculáveis. Isola cidades. Mata pessoas.
    Hoje, a meteorologia prevê com antecipação onde e quando vai ocorrer o temporal. A providência mais elementar, a mais óbvia, seria avisar as pessoas. Mas nem isso as autoridades parecem capazes de fazer.