• O dia dos humilhados


    Danilo Angrimani

    O calendário é cheio de dias comemorativos. Tem o dia do jornalista, dia do corretor de imóveis, dia disso, dia daquilo. Em Santo André, na ala de entrega de medicamentos gratuitos do Hospital Mario Covas, todo dia é dia dos humilhados.
    Os remédios são doados pelo Estado. Talvez por isso é preciso fazer com que as pessoas sofram um pouquinho. Não é só ligar pra lá, marcar uma hora e voltar no dia agendado para pegar o medicamento. Não, a burocracia fará o doente, vítima de doenças graves (câncer, Aids, epilepsia, insanidade), pagar o preço de precisar do remédio. A burocracia vai humilhá-lo até ele falar sozinho, chorar, gritar de desespero.
    O sistema de triagem segue uma lógica incompreensível. No luminoso, aparecem uns números, com séries (200, 300, 400). Se o número da senha do paciente for 254, por exemplo, ele vê a fila do 300 andando bem, a fila do 400 caminhando naturalmente, e a sua - paralisada. Não sabe o que acontece. Não dá para ter a mínima previsão de quanto tempo vai demorar.
    O lugar tem umas 200 cadeiras. Todas, ocupadas. São mulheres com crianças de colo, gente tossindo, espirrando. Pessoas pálidas, magérrimas, com o lenço cobrindo a careca. Gente amparando gente que mal consegue andar.
    Esqueça as maravilhas da informática, a rapidez do fluxo de informações, a internet, o diabo. Nesse posto, é comum ficar cinco horas na fila de espera. Depois de 300 minutos perdidos, o infeliz arrasta-se até o balcão e descobre que terá de voltar outro dia. “Infelizmente, o seu remédio acabou.”
    Além de oferecer um sistema de entrega de remédios que deixa a inteligência envergonhada, a informação corre devagar como água em cano entupido. Os atendentes estão lá. Uma dezena deles. São bonzinhos. E só isso.