• O ônibus e o choque cultural


    Danilo Angrimani

    Tive a felicidade de morar no exterior. Quem consegue sair do Brasil e comparar realidades levanta uma sobrancelha toda vez que alguém repete o clichê: “Apesar de tudo, não tem país melhor que o Brasil”. Em termos econômicos, é difícil encontrar um número negativo. O Brasil é o quinto país do mundo em ativos. Tem US$ 250 bilhões investidos. Pagou a dívida com o FMI. E por aí vai.
    Em 1981, quando saí do Brasil pela primeira vez, levei um choque cultural. Fui morar na Inglaterra. Lembro do meu espanto ao caminhar cedinho pela avenida principal da cidade e topar com dezenas de litros de leite, colocados nas portas de casas e lojas. “Ninguém rouba?”, perguntei, assombrado.
    O que me deixava estupefato mesmo eram os ônibus. Quando peguei um folheto com os horários dos coletivos, achei que era brincadeira. Eu deveria estar no ponto às 6h43. Não às 6h44 ou às 6h42. Eram 6h43. É claro que não dei bola.
    No dia seguinte, eram 6h43, quando eu descia a rua onde morava e vi o coletivo se afastar do ponto de parada e ir embora. Parece incrível, mas o ônibus chegava todos os dias, pontualmente, às 6h43.
    Por isso, não adianta o Brasil ser a quinta potência isso, a terceira potência aquilo, se os serviços públicos continuam uma porcaria. Quem mora no ABCD e precisa usar transporte coletivo sabe que a vida é um inferno. O motorista para no ponto, quando quer. Os ônibus vivem lotados. Demoram pra chegar. É até um milagre que não haja casos de depredação e manifestações públicas frequentes.
    Vou acreditar que o Brasil tornou-se um país civilizado, quando a população for melhor tratada pelo transporte público. Até lá, para mim, o Brasil continua sendo aquele país periférico pobre e maltrapilho de sempre.