• O segredo da Cabana


    Danilo Angrimani

    Em Santo André, em uma sala de espera, um livro na mesa da secretária me chama a atenção. Em São Bernardo, em uma instituição financeira, vi sobre a mesa de uma diretora o mesmo livro. Durante uma reunião em Diadema, alguém se vira para mim e pergunta: “Você leu A Cabana?”. Aí era demais. Havia muitos sinais para ignorar.
    A Cabana é um fenômeno mundial de vendas. Foi escrito pelo canadense radicado nos Estados Unidos, William Paul Young, filho de missionários que atuavam na Nova Guiné. Sua primeira edição foi patrocinada por amigos do autor, depois de o original ter sido recusado por 26 editoras.
    A história é singela. Um pai, desesperado depois que sua filha é estuprada e morta por um pedófilo, revolta-se contra Deus. Em casa, recebe um bilhete, assinado pelo próprio Criador, para um encontro reservado na cabana, onde teria acontecido a tragédia. O pai da menina assassinada vai até o lugar e encontra-se não apenas com Deus, mas com a Santíssima Trindade.
    Na era do politicamente correto, Deus é uma mulher negra, grande e forte, excelente cozinheira, uma versão turbinada de Tia Anastácia. O Espírito Santo é uma oriental (chinesa/japonesa) e Jesus, um judeu/árabe, obviamente carpinteiro, que faz piada com seu nariz adunco.
    Ao fechar o livro, fiquei tentando entender por que esse livro fez tanto sucesso. Para quem está diante da Santíssima Trindade, é muito pouco o oferecido. Em geral, os diálogos são frustrantes. Deus e o Espírito Santo trocam risadinhas e piscadelas alcoviteiras. Jesus confessa que adora pudim de caramelo com tiramissu.
    O enredo é raso, linear, óbvio. É, em suma, um livro bizarro de constituição frágil. O segredo da Cabana talvez seja esse mesmo. Tem todo o jeitão de programa de TV. É como assistir Pedro Bial e seus turbinados do BBB discutindo o Evangelho.