• Os párias do trânsito


    Danilo Angrimani

    Como ensinou Glória Perez em Caminho das Índias existe um sistema de castas na Índia, que separa as pessoas em grupos. Lá em cima, estão os escolhidos, cobertos de privilégios; lá embaixo, fica o mais baixo estrato social, a classe dos não-favorecidos, os sem-casta.
    É curioso, mas o trânsito no Brasil segue a mesma cultura de castas. O automóvel ocupa todos os espaços e reina soberano. Já os ciclistas são os párias. Ninguém se dá conta que eles existem até que um deles seja atropelado perto da gente. “Nossa, olha só como ficou a bicicleta...”
    Quem circula pela via Anchieta não presta atenção, nem enxerga, mas há ciclistas trafegando, quase sempre, na contramão do acostamento.
    Ao percorrer as avenidas Kennedy, Senador Vergueiro, Pereira Barreto, em São Bernardo; avenidas Industrial e D.Pedro II, em Santo André; a Goiás, em São Caetano; a Fábio Eduardo Ramos Esquivel, em Diadema; o cenário é o mesmo: ciclistas na contramão. Carros, caminhões, ônibus, em velocidade, passam a centímetros dos pedais e das pernas.
    O fato extravagante é que ninguém se importa com eles. Nem as autoridades. Cansei de ver ciclista na contramão da via Anchieta passar na frente de policiais rodoviários que, simplesmente, não deram a mínima.
    O ciclista sente-se mais “confortável” ao trafegar na contramão. É preferível encarar o “inimigo” de frente, do que não imaginar o que vem pelas costas. O artigo 58 do Código Nacional de Trânsito, no entanto, é claro. Diz que as bicicletas devem trafegar no mesmo sentido de circulação da via. Fim de papo.
    Na Europa (Alemanha, principalmente), as ciclovias funcionam e a bicicleta – transporte verde, por excelência - é encarada como o brâmane de Glória Perez, com privilégios e direitos assegurados. Aqui no Grande ABC, os ciclistas são tão párias, tão menosprezados, que ficam invisíveis no tecido urbano.