• Os pequenos ditadores de nosso cotidiano


    Danilo Angrimani

    Reportagem deste Bom Dia mostrou o sofrimento de moradores de Santo André que vivem rodeados por bares barulhentos, vândalos e bêbados. O problema desses botecos de alto investimento no bairro Jardim é crônico. Começou no início dos anos 90. Passou por várias administrações e suas respectivas ideologias partidárias. Não foi solucionado, nem minorado. Com o passar dos anos, o problema só se agravou.
    Isso acontece por que o brasileiro tem uma estranha condescendência em aceitar a contravenção. Aceita-se o barulho que vem do vizinho; admite-se o jogo do bicho; as barbaridades do trânsito; a derrubada de mata nativa; a invasão de áreas públicas.
    Esse estado de bagunça generalizada é coisa nossa. Lembro de um fato ocorrido na França, quando um grupo de compatriotas reuniu-se para uma feijoada típica em um apartamento exíguo. Depois do almoço e das fatídicas caipirinhas, teve início o batuque. Era um barulho infernal. Falei para a pessoa que estava comigo: “Vamos embora que o bicho vai pegar”. Não deu outra. A polícia baixou e levou todo mundo para um papo com o delegado.
    Em outras culturas, seus habitantes têm plena consciência de seus direitos de cidadãos. Aqui, a gente apenas tenta sobreviver. Nesse caos, imperam os pequenos ditadores. O pichador, por exemplo, suja o muro e sobrepõe a sua vontade de emporcalhar a cidade aos direitos dos demais moradores, que preferiam que o muro estivesse limpo. O grafiteiro é outro pequeno ditador que impõe a sua suposta arte. Em nenhum momento, houve um plebiscito para se saber se a população quer aquelas garatujas.
    No que se refere aos bares do bairro Jardim, muitos não têm alvará de funcionamento. São pequenos ditadores que chegaram depois. Tornaram insuportável a vida dos moradores mais antigos e continuam seu exercício ditatorial com o beneplácito das autoridades de plantão.