• Pelo telefone


    Danilo Angrimani

    O telefone do meu escritório fica mudo. Morto, apagado. Em seguida, é a vez do sinal da internet desaparecer. Aquela luzinha verde, que me mantém conectado ao mundo, apaga. Bate uma sensação de pânico.
    Pego o celular e ligo para a operadora (Telefônica). As mãos e a voz tremem. A atendente diz que há um problema na linha e que o técnico virá no dia seguinte.
    Vem o dia seguinte e nada do técnico. A atendente diz que houve um contratempo, mas que, “amanhã cedo”, ele aparece.
    Na peça Esperando Godot, de Beckett, dois coitados passam o tempo inteiro à espera de alguém que não virá. No terceiro dia de jejum telefônico, me transformo em personagem da dramaturgia.
    A conversa com os atendentes torna-se passional. Grito, ameaço, choro. “A senhora não está me vendo. Mas, estou ajoelhado. Pelo amor de Deus, manda alguém arrumar o meu telefone!”
    Pelo celular, ligo para a Ouvidoria da Telefônica. Ligo para o Procon. Para a Anatel. Ligo para a igreja de São Judas. E se tivesse o celular do Diabo tentaria o contato. O telefone mudo. A luz verde, apagada.
    É o quinto dia sem telefone. Nesse período, Deus já tinha feito os mares, as plantas, as árvores, o dia e noite, os céus, o Sol, a Lua, as estrelas, os peixes e até as aves. Nada do técnico.
    Os atendentes – por brincadeira ou sadismo – passam a ligação para departamentos que não têm nada a ver com a história. Dão risada. Virei piada.
    No sexto dia, um atendente me diz o nome da empresa terceirizada que faz o conserto. Duas ligações depois, falo com a sacerdotisa que despacha os mecânicos dos telefones quebrados. Meia hora se passa até o sujeito bater na minha porta e devolver a luz da minha vida. “Santa modernidade, Batman!”, diria Robin.