• Pequenos e grandes ditadores


    Danilo Angrimani

    No passado, havia os grandes ditadores. Censores proibiam filmes, livros, peças de teatro e picotavam reportagens. Pessoas desapareciam. Era um estado de exceção, sem eleições, sem liberdade, um pesadelo cinza. Vieram a volta do estado de direito, o retorno à democracia, uma nova Constituição foi aprovada. Retornamos – lentamente - à civilização.
    Agora, estamos diante dos pequenos ditadores. Eles são em tão grande número e estão em tantos lugares que, suponho, ocupam o alto da cadeia alimentar. São nossos predadores naturais.
    O pequeno ditador fura fila. Bebe antes de dirigir. Obriga você a ouvir a música que ele gosta. Mesmo que você não queria escutar, ele se arma de aparelhos eletrônicos e consegue invadir o espaço sagrado da sua casa, o seu “castelo”.
    Na estrada, o pequeno tirano cola na traseira do seu carro e tenta obrigá-lo a andar na velocidade que ele, pequeno ditador, considera a ideal. No shopping, o pequeno ditador ocupa as vagas destinadas a idosos e deficientes. Na hora de trocar de faixa, no trânsito, joga o carro em cima do seu, porque a preferência – sempre – é dele.
    Em dia de clássico de futebol, o pequeno ditador se realiza. Espanca gente que usa uniforme diferente do seu. Queima bandeira que não é sua. Junta-se a outros iguais. A caminho do estádio, segue em bando, vociferando seu ódio. A polícia os escolta e protege.
    O ditador mínimo dissemina o ódio a homossexuais. Escreve artigos em jornais acadêmicos e incita os colegas a atirar excrementos em gays.
    Pichadores são um exemplo notável de pequenos tiranos. A vontade deles de sujar a cidade se sobrepõe à vontade da maioria, que gostaria de manter a cidade limpa.
    Pequenos ditadores são tantos e em tão grande número que a briga sufocante de 25 anos contra os grandes ditadores parece ter sido até menos complicada.