• Personagens de jornal


    Danilo Angrimani


    Meu primeiro emprego em um jornal foi no Diário Popular, que virou Diário de S.Paulo e pertence hoje ao grupo BOM DIA. Na época, era uma redação peculiar habitada por tipos inesquecíveis.
    Havia um sujeito, de terno cinza e gravata escura, que chegava pontualmente às cinco da tarde. Ele dirigia-se para uma das muitas máquinas de escrever. Tirava o paletó. Arregaçava as mangas e trabalhava arduamente. Conversava pouco com a gente. Às vezes, servia-se de um cafezinho. Os colegas o invejavam. Trabalhava duro, falava pouco, não frequentava o boteco. Parecia competente. Só que ninguém sabia o que ele fazia.
    Quando o jornal foi vendido, o novo diretor de Redação, impressionado com a dedicação do tipo, mandou chamá-lo. Descobriu que o sujeito não era repórter, nem articulista e nem funcionário do jornal. Era um vendedor autônomo que usava as dependências da redação para escrever seus relatórios de vendas.
    Outro tipo folclórico era um secretário que ficava no andar onde funcionavam os linotipos, máquinas demoníacas, barulhentas, que fundiam o chumbo para transformá-lo em caracteres gráficos. Formavam-se placas de chumbo, emolduradas por ferro, que serviam de matriz para imprimir as páginas do jornal. Nem sempre dava certo. Às vezes, tinha mais letra que página. O secretário então determinava: “Corta pelo pé”. Então, no dia seguinte, o leitor acompanhava a notícia: “O delegado Fulano de Tal disse que tem provas para incriminar o suspeito, mas”. O restante da notícia era o “pé” que tinha sido “amputado” pelo secretário.
    De madrugada, chegava o cantor e compositor Geraldo Vandré, vítima dos torturadores da Ditadura Militar. Ele sentava-se em uma das muitas mesas disponíveis, naquele horário. Entre 2h e 3h, escrevia dezenas de páginas. Um dia, curioso, fui ler. Esperava encontrar novas canções do autor de Pra não dizer que não falei de flores. Topei com uma algaravia, absolutamente, incompreensível.