• Pra rir e pra chorar


    Danilo Angrimani

    Uma dúvida me atormenta o espírito: por que essas pessoas, que fazem figuração nas colunas sociais, dão risada? Será que elas riem para nós? Faço essas indagações, porque, quando olho em volta, não encontro motivos para dar risada. Nada me parece engraçado.
    Apesar de trabalhar em uma região que é tecnológica, política e socialmente hiperdesenvolvida, ainda encontro, no dia a dia, coisas do arco-da-velha.
    Não entra na minha cabeça, por exemplo, que o trabalhador do ABCD tenha que cruzar córregos e rios, tropeçando em pinguelas da época em que “tecido fino” era vendido em loja de roupa e não em boca-de-fumo.
    São pontes precárias, oscilantes, feitas de madeira, cheias de furos. Se a gente enfiar o pé em um buraco no “piso” da “ponte”, corre o risco de ficar pendurado ali em cima. Entra administração, sai administração e as malditas pinguelas continuam. Perigosas, prosaicas, do tempo do onça, resistem às tempestades eleitorais até que um dia são levadas pelas chuvas de verão.
    As pinguelas não são as únicas vilãs. O tecido urbano é caótico. As ruas não têm placas de identificação. Não é preciso ir muito longe. Percorra alguns bairros “bons” de Santo André. Você tenta achar a rua e não há placa. À noite, é um pesadelo. Sem esquecer dos números das casas que seguem uma ordem demoníaca (acredite: 3.000 pode ser vizinho do 3).
    Ônibus, então, nem se fala. Atrasam, são lotados. Os pontos são descobertos. Choveu, ensopou. Na hora de entrar no coletivo, é uma agonia, um desespero. E dá-lhe empurrão, pisão no pé, cotovelada na testa.
    Assim, é fácil de se perceber que essa gente das colunas sociais, não ri para nós. Eles riem de nós. Mas tudo bem. Como diria o genial e surpreendente escritor Gabriel Chalita ao padre Fábio de Melo, “amanhã é um outro dia”.