• Procura-se Sherlock Holmes


    Danilo Angrimani

    Sala lotada. Fila na entrada. Tudo isso para assistir a nova versão de Sherlock Holmes, exibido no ABCD em vários cinemas. Dirigido pelo ex-Madonna Guy Ritchie, estrelado pelo caricato Robert Downey Jr. e o canastrão Jude Law, o filme é uma sucessão de explosões, pancadaria, corre-corre, capa e espada, que faz a gente sentir vontade de fugir do cinema e correr em busca de um livro do personagem, criado pelo médico Conan Doyle.
    Sherlock Holmes era um recluso. Morava em um apartamento tranquilo no número 221-B da Baker Street. Fumava cachimbo. Tocava violino. Usava um sobretudo elegante. Era um leitor ávido, um cientista, que usava cocaína para “estimular” o raciocínio. Tinha sempre a seu lado o amigo Watson (Holmes nunca disse a expressão: “Elementar, meu caro Watson”).
    Já o personagem interpretado por Downey Jr. é um sujeito turbinado, que, quando não tem o que fazer, sai às ruas e troca murros com fortões anônimos. Como a maioria dos filmes de ação, não faltam explosões. Hollywood adora explodir coisas (prédios, pessoas). A sala treme com tanto barulho. Os pedaços voam em cima da gente.
    O novo Holmes tem a aparência suja de quem não toma banho, nem faz a barba. Parece mais um mendigo que um investigador renomado. No filme, em um diálogo com Watson, é usada a palavra “masoquista”. O termo foi criado, em 1886, pelo psiquiatra alemão Krafft-Ebing, em sua célebre obra Psychopathia Sexualys. Tudo bem, Holmes e Krafft-Ebing até seriam “contemporâneos”, mas a expressão só viria a ser conhecida no século 20 ao ser comentada, discutida e ampliada por Freud.
    Falta a Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, o charme do personagem original. Faltam o exercício do intelecto, a supremacia da inteligência, a discussão coerente que levará à solução do mistério. E sobram bombas, barulho, pancadas, confusão. Falta cortesia e sobram grosserias. Fuja pela porta de incêndio!