• A rua como extensão da própria casa


    Danilo Angrimani

    O bairro Jardim, em Santo André, reúne restaurantes para pessoas de paladar apurado, bares movimentados e residências de alto padrão. É uma área interessante, com muitas árvores, ruas bem traçadas e gente bonita circulando.
    À noite, no entanto, a gente vê coisas que mostram a pior faceta do brasileiro. Basta percorrer as ruas próximas aos bares para topar com eles. Como se estivessem no banheiro de suas casas, esses sujeitos não têm o menor pudor de fazer xixi na rua. Eles urinam no jardim das casas, ao lado das árvores, no meio da rua.
    Aos domingos pela manhã, é comum ver os moradores, armados de mangueira, jogando água na sujeira. No dia seguinte, começa tudo novamente. É um trabalho de Sísifo, aquele coitado que precisava empurrar uma bola pra cima do morro e, ao chegar lá em cima, a bola escorregava pra baixo e Sísifo precisava começar outra vez. O eterno recomeço da limpeza sem fim.
    Ao contrário de outras civilizações que entendem que a rua é extensão da sua própria casa, o brasileiro considera a rua um lugar que é de todos e – por isso – não é de ninguém. Um lugar onde tudo pode e tudo deve ser feito. Inclusive, utilizá-la como mictório.
    Em alguns países, como Cingapura, cuspir na rua dá multa de 260 dólares e algumas chibatadas nas costas do infrator reincidente. Entendo que, no caso brasileiro, não se trata de pedir mais ação policial. É um caso simples de educação. Ou melhor, de falta de educação.
    Se as pessoas entendessem que a rua é mesmo a extensão de suas casas, viveríamos em bairros mais limpos, com praças menos deterioradas. Esse pessoal que joga entulho nas calçadas seria perseguido como bruxa na Idade Média. E os pichadores, bom, os pichadores seriam como os amoladores de faca. Uma atividade em extinção.