• A saída do beco


    Danilo Angrimani

    Comecei a trabalhar na região em 1993. Para ser mais exato: no dia 1º de janeiro de 1993. Na volta para casa, em meio a uma chuva forte, entrei na traseira de um Mercedes. O dono do carro era o Pelé, mas isso é outra história.
    Na época, em comparação com o já insuportável trânsito de São Paulo, circular pelas ruas do Grande ABC, era um paraíso. A gente saía depois e chegava antes. O trânsito funcionava que era uma beleza.
    Não é mais assim. Um percurso simples entre Santo André e São Bernardo pode se arrastar por intermináveis 45 minutos. Às vezes, mais.
    Além do aumento de veículos, a região tem funis (avenidas que se estreitam), gargalos (construções que aparecem no meio do nada) e um sério problema de sincronização de semáforos. Você está parado diante do vermelho. Ele abre. Você arranca. Anda cem metros. E para novamente em outro vermelho. Os semáforos parecem ter sido planejados pelo mesmo arquiteto que projetou as comportas do Canal do Panamá.
    Quem anda de ônibus, além de ser carregado em triunfo pela multidão, quando consegue sentar, enfrenta humilhações inesquecíveis. Outro dia, durante um temporal, consegui lugar junto à janela. Sentado, comecei a sentir um incômodo estranho. Parecia um pingo.
    “Será que tem goteira dentro de ônibus?”, pensei.
    Tinha. A inacreditável goteira caía bem no alto da minha careca. O máximo que consegui fazer foi ficar de lado, entregando o ombro à sanha do inimigo.
    A saída do beco todo mundo sabe onde fica: investimento em transporte público de qualidade, em transporte alternativo e por aí vai. Como diz o sábio chinês, “a saída passa pela porta, mas quem ousa sair por ela?”