• A vontade de tomar chá de sumiço


    Danilo Angrimani

    Moradores do Riacho Grande, em São Bernardo, já se acostumaram com os turistas de fim de semana que desaparecem na Serra do Mar. Em muitos casos, são escoteiros, com bússolas, celulares (que nem sempre funcionam), canivetes multifuncionais. Apesar de todo o aparato, eles somem. Os familiares avisam as autoridades. Depois de uns dias de busca, um bando de famélicos, torturados por mosquitos, roupas em frangalhos, é trazido de volta à civilização.
    Há sumiços acidentais e sumiços propositais. Recentemente, a auxiliar administrativa Sandra Regina Martins apaixonou-se por um homem no metrô. Largou tudo e foi viver uma aventura maluca, deixando a família apavorada. Sem esquecer aquele casal de adolescentes que desapareceu. A polícia foi encontrá-los em Boiçucanga, em São Sebastião (SP). Disseram que queriam viver uma aventura igual ao do personagem do filme Na Natureza Selvagem. Detalhe, o personagem em questão morre de fome no Alaska.
    Essa vontade de sumir e recomeçar de novo uma outra vida é um desejo recorrente. São raros aqueles que o concretizam. A escritora norte-americana Anne Tyler escreveu um livro interessante sobre esse “chá de sumiço”. Em A Escada dos Anos, ela conta a história de uma mulher de 40 anos, bem casada, com filhos e - ignorada pela família -, que decide um dia recomeçar outra vida, em outro lugar.
    Depois de uns dias, a família percebe que ela sumiu e pede ajuda à polícia. Na hora de descrevê-la, nem o marido, nem os filhos, conseguem se lembrar se ela tem o cabelo loiro ou castanho, se ela pesa 48 ou 58 quilos, não são capazes nem de determinar sua altura (“1m58 ou 1m68”).
    Como naquela piada: o marido casado há trinta anos vira-se para a mulher e pergunta: “Qual é a cor dos seus olhos, querida?”. E ela responde: “Pergunte para o advogado que fará o nosso divórcio”.